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Ficha de Leitura V - A Entrevista

A Entrevista
Márques, M. (2002).
In
R. Fernandez-Ballesteros (Ed.) Introducción a la Evaluación Psicológica I, (3ªed., pp.323-355). Madrid: Ediciones Pirámide.

O instrumento de avaliação que precede qualquer tipo de intervenção ou processo de tomada de decisão é a entrevista. Esta adopta um formato interactivo mediante o qual realiza o processo de avaliação – intervenção (Casullo e Márquez, 2003).
A entrevista é, pois, um procedimento bastante utilizado, uma vez que poderá dar resposta a diversos objectivos, tais como: conseguir informação ou oferecer informação em avaliação e intervenção psicológica; indagar sobre características de personalidade, estratégias, incidentes críticos, habilidades, competências e dados biográficos em processos de selecção; indagar sobre os aspectos motivacionais, interesses e competências nos processos de orientação; investigar o conhecimento que um especialista emprega quando resolve problemas da sua competência; orientar ou auxiliar e comunicar a clientes ou pacientes os resultados de qualquer processo avaliativo. É um instrumento que auxilia a recolha de dados através de auto-relatos ou de hetero-relatos do sujeito avaliado, o que revela não só a sua importância, mas também os seus pontos fortes e as suas fragilidades. Actualmente, é das técnicas mais utilizadas no contexto clínico, sendo um procedimento insubstituível no momento da primeira recolha de informação, sempre que as condições do paciente assim o permitam (Edelstein e Yolman, 1991).
Assim, a entrevista é uma forma particular de interacção verbal e não verbal entre entrevistador e entrevistado. Atendendo ao conjunto de características e objectivos da entrevista, esta poderá dar lugar a variadíssimos formatos, dos quais dependerá a maior ou menor qualidade da informação obtida. Por último, em determinadas condições este instrumento é bastante eficaz, quer para averiguar conteúdos não observáveis, quer para orientar, numa primeira recolha de informação, quais os conteúdos a serem avaliados mediante outros procedimentos [p.270].
Contudo, a esta técnica estão aliadas duas fontes de problemas: por um lado, o facto de a informação obtida através da entrevista se basear em informação dada pelo próprio sujeito avaliado e, por outro, a dificuldade de separar a entrevista enquanto técnica de uma conversa convencional [p.271].


A entrevista como instrumento básico do processo de avaliação – intervenção psicológica

- O início da avaliação
A primeira entrevista é realizada normalmente no início da avaliação. A entrevista pode assumir diversos moldes conforme os objectivos da mesma – avaliação de problemas susceptíveis de mudança, estabelecimento de um diagnóstico, orientação e selecção [p.271].
Podemos, assim, descrevê-las mediante três casos. No primeiro caso, em que a avaliação é solicitada por um cliente/paciente ou por parentes, é necessário compreender a natureza do pedido e determinar quais os conteúdos a serem avaliados. Assim, a entrevista permite responder a três perguntas básicas: 1) Porque é que o/os entrevistado/s pretende/m uma avaliação psicológica?; 2) O que espera/m dos resultados da avaliação psicológica?; e 3) Quem é o sujeito da avaliação e que aspectos do mesmo vão ser alvo de exploração?
Já no segundo caso, em contextos clínicos da prática clínica e forense, o pedido de avaliação pode ter diversas proveniências ou possuir algumas restrições conforme o contexto. Na prossecução de uma avaliação solicitada por alguma das partes que participam num processo judicial, as perguntas acerca das expectativas da avaliação e dos aspectos que vão ser objecto de avaliação, tendem a ter um peso predeterminado e o entrevistado pode não ter nenhuma exigência ou mesmo ter uma atitude negativa perante a avaliação. O objectivo destas entrevistas é procurar indícios relacionados com categorias diagnósticas ou identificar indícios relacionados com a presumível incumbência de delitos no sujeito avaliado (abuso, maus-tratos ou qualquer outro tipo de dano).
Finalmente, no terceiro caso, em contextos organizacionais, a entrevista tem várias utilidades: como ferramenta para a analisar os postos de trabalho, para determinar os perfis de execução e de desempenho, e para desenhar programas de formação (Muchinsky, 2000). Enquanto técnica de primeira recolha de informação a entrevista é utilizada nos processos de selecção abertos, consoante o número de candidatos. Esta visa avaliar as características observáveis do indivíduo – aspecto, discurso, comunicação –, a biografia pessoal, formativa e profissional, as expectativas, a disponibilidade e o esforço adicional. Resumindo, as perguntas a que se pretende dar resposta são: 1) Qual o grau de adequação que o entrevistado apresenta face a um conjunto de critérios?; 2) Quais são os pontos fortes e fracos do candidato?.
De forma a responder às questões apresentadas nos três casos acima citados torna-se imperativo conhecer e seleccionar a priori os conteúdos que vão figurar na planificação [p.272].
  • Os conteúdos:
Relativamente aos conteúdos da primeira entrevista, deverão ser considerados dois aspectos fundamentais: o tipo de solicitação da avaliação (o quê/quem solicitou?) e as características do sujeito em avaliação. São estes que permitem definir a orientação da entrevista (primeiro aspecto) e os recursos e formatos a utilizar (segundo aspecto) [p.272].
Assim, em relação ao primeiro caso anteriormente apresentado, em que a avaliação poderá ser solicitada pelo próprio sujeito ou pelo cuidador (pais ou alguém que mantém uma relação próxima com o sujeito) e que ocorre quando se verifica a necessidade de aconselhamento ou orientação para determinados comportamentos, sentimentos, situações, preocupações e outros de diferente natureza que surjam perante diversos contextos, é importante que o entrevistador avalie: as razões que desencadearam a solicitação da entrevista; a natureza do problema; as expectativas do entrevistado. Perante esta análise o entrevistador decide sobre a suspensão da recolha de informação ou a realização da mesma.
Aquando da recolha de informação o entrevistador deverá considerar em relação ao entrevistado, aspectos gerais da sua vida passada (nascimento e desenvolvimento, família e ambiente social, contextos educativos e experiências laborais, condições biológicas e acontecimentos positivos e negativos marcantes), vida actual (condições físicas da zona onde vive, condições familiares, relações sociais (fora do grupo primário), condições económicas, profissão, estilo de vida, estado de saúde e interesses e motivações) bem como as características e circunstâncias referentes à solicitação da entrevista [pp.272-274].
Relativamente ao segundo caso, nos contextos de clínica (saúde mental) e forense, o estado do indivíduo a avaliar (confusão, verbalizações delirantes, comportamentos de pânico, mutismo, aparente perda de consciência, negativismo, etc.) é determinante para iniciar uma primeira entrevista ou para optar por outros procedimentos ou recursos (Muñoz, 2003). Caso seja possível manter a interacção com o indivíduo a avaliar, procura-se, através de uma entrevista não estruturada, apreciar os seguintes conteúdos: atenção, memória, orientação, pensamento, linguagem e motricidade.
Por último, em relação ao terceiro caso, nos contextos organizacionais, em entrevistas de selecção utiliza-se uma planificação de conteúdos baseados na análise do posto de trabalho (Furnham, 2001), sendo os conteúdos definidos pela organização. Geralmente, os conteúdos a avaliar são a experiência (curriculum académico e dados biográficos formativos e profissionais), as características pessoais (aptidões, estilos, habilidades, valores e interesses) e as características laborais (conhecimentos e destrezas).
A frequência na utilização da entrevista neste contexto deve-se principalmente a três razões: primeiramente, pela tradição, que sempre aconselhou um contacto directo com qualquer potencial candidato a ocupar um posto de trabalho; em segundo lugar, pelas vantagens em relação a outros métodos; e, por último, porque permite ao entrevistador enquadrar o posto de trabalho escolhido com a finalidade do entrevistado conhecer o seu valor relativo na empresa, a política de remunerações, as perspectivas de promoção ou mobilidade, etc. [p.274].
  • Realização da primeira entrevista:
Ao nível da forma como o entrevistador irá recolher a informação na primeira entrevista, este deverá considerar dois aspectos: o tipo de estruturação das perguntas e respostas e o estilo e direcção que irá utilizar ao longo da interacção [p.274].
Destaca-se a importância da estruturação da entrevista (mais ou menos estruturada) na medida em que esta constitui um aspecto importante na qualidade da informação a recolher. Os formatos de entrevista não-estruturada, permitem uma comunicação mais fluida, no entanto, não garantem a precisão das respostas, na medida em que adoptam um estilo mais alargado e pouco directivo. As entrevistas abertas são mais indicadas para situações como as descritas no segundo caso acima referido, na medida em que permitem uma recolha de informação mais completa (auto-informada e observada). Pelo contrário, a entrevista estruturada viabiliza uma maior precisão de respostas permitindo uma comparação entre diferentes sujeitos e assim uma tomada de decisão mais segura [p.275].
Na selecção do tipo de estrutura da entrevista ou a própria combinação de estruturação ou não-estruturação, deverão ser considerados os seguintes critérios: objectivo da entrevista; exigência de precisão; tipo de interacção que se pretende estabelecer; o momento e conteúdo do que se pretende questionar.
No primeiro caso, referido acima, o mais frequente é iniciar-se a entrevista em formato não-estruturado, passando posteriormente a um formato semi-estruturado seguindo-se um padrão de perguntas, aplicando-se um modelo estruturado em termos de perguntas e respostas, quando se pretende informação sobre um problema ou comportamento que ocorra ao longo da vida do sujeito [p.275].
No terceiro caso acima exposto a estrutura dependerá da metodologia utilizada por cada entidade, sendo que poderão ser aplicadas todas as combinações de estruturação. De uma forma geral, a entrevista poderá ser iniciada em formato aberto passando a semi-estruturada, introduzindo-se posteriormente um padrão de perguntas com o objectivo de recolher dados biográficos e obter informação sobre determinadas características pessoais e profissionais (entrevistas situacionais e entrevistas de incidentes críticos). A entrevista situacional consiste no facto do entrevistador apresentar situações hipotéticas e solicitar ao entrevistado que refira como actuaria perante as mesmas. Na entrevista de incidentes críticos são apresentadas situações reais, que ocorram com frequência e em postos concretos. Em determinadas situações poderá ainda ser introduzido o método de killer questions ou perguntas determinantes (em que são obrigatórias respostas afirmativas), com vista ao entrevistador decidir da continuação ou não do entrevistado no processo de selecção [pp.275,276].
Em situação de entrevista deverão ser seleccionados conteúdos num formato adequado à idade, nível cultural e intelectual do entrevistado [p.276].
  • Análise da informação obtida na entrevista:
Na medida em que a entrevista inicial tem como finalidade a obtenção de informação sólida com vista à formulação de hipóteses, a análise dessa informação permite uma avaliação da quantidade de informação recolhida (detecção de comportamentos e/ou problemas delimitados no tempo e em situações concretas), bem como da qualidade dessa mesma informação [p.276].
Ao nível da quantidade de informação recolhida a análise é realizada em função: do número de conteúdos previstos na planificação, ponderando a quantidade de informação recolhida considerada suficiente e os que não obtêm informação suficiente (para o primeiro caso acima descrito); distinção entre transtornos possíveis, excluídos e explorados (para o segundo caso acima descrito); análise dos pontos fortes e fracos dos candidatos de acordo com perfil traçado pela entidade (para o terceiro caso acima descrito) [p.276].
A análise da qualidade da informação recolhida depende dos critérios de fiabilidade, validade e precisão de informação, as quais estão relacionadas com as estratégias adoptadas no decorrer da entrevista e com os procedimentos utilizados com vista a garantir a metodologia das técnicas utilizadas.
Para garantir a fiabilidade e validade da informação, em termos gerais poderão ser utilizados dois entrevistadores e recorrer-se à utilização de fontes e técnicas distintas [pp.276,277].

- A entrevista na comprovação da hipótese
Para fazer a comprovação da hipótese pode recorrer-se à entrevista que neste momento, deve contemplar conteúdos específicos relacionados com as hipóteses que se pretendem comprovar. Para esta finalidade, é comum utilizar-se formatos semi-estruturados e estruturados [p.277].
O suposto de quantificação é o suporte de qualquer estratégia encaminhada para provar que se produz um determinado fenómeno e para estabelecer a medida na qual se produz, devendo utilizar-se propostas condutuais estruturadas, como sendo: A Classificação de Goldfried e Davidson (1976); O Sistema Funcional de Bijou (1976); A Classificação de Deficit e Excessos Condutuais de Kanfer e Grimm (1977) e O Sistema de Classificação de McReynolds (1979). Utilizam-se adicionalmente entrevistas semi-estruturadas específicas para recolha de presença, quantidade, duração, frequência, intensidade e aspectos qualitativos de comportamentos, contextos, estímulos ou conjuntos de estímulos [p.278].
O suposto de semelhança é um fenómeno de características semelhantes ao anterior, onde a entrevista ocupa um papel predominante, e que consiste em verificar se as características que definem um perfil ou categoria se cumprem suficientemente num sujeito em concreto [p.278].
  • A exploração das características relacionadas com transtornos:
As entrevistas semi-estruturadas e estruturadas que respondem a esta estratégia são a evolução ou aplicação derivadas de investigações categoriais e estão baseadas tanto nas classificações da APA (American Psychiatric Association), como da OMS (Organização Mundial de Saúde). Estas organizações foram produzindo entrevistas gerais e específicas, estruturadas e semi-estruturadas, cada vez mais coincidentes e inclusivas, permitindo detectar a existência de um ou mais transtornos ou comprovar uma hipótese restrita a um tipo concreto de transtorno (cognitivo, de personalidade, psicológico, de ansiedade, etc.), dirigidas por hipóteses baseadas no suposto de semelhança [pp.278,279].
  • A comprovação do ajuste ao critério:
Neste caso, o objectivo da entrevista, num processo de selecção, é contribuir para a garantia de um ajuste entre uma pessoa e um projecto, uma linha de actuação ou um posto de trabalho. Nesse sentido, a entrevista deve adicionar resultados prévios de segurança na selecção, confirmando as características desejadas e comprovando que não existem outras não desejadas associadas ao perfil [pp.279,280].
Alguns dos conteúdos mais presentes nestas entrevistas são: os pontos fracos dos candidatos pré-seleccionados; a capacidade de interacção social; o esforço adicional que um candidato está disposto a fazer em termos de disponibilidade ou mobilidade e, a observação geral do comportamento [pp.279,280].

- A entrevista na comunicação de resultados
Para concluir o processo de avaliação é obrigatória a comunicação dos resultados à pessoa (cliente ou paciente) que solicitou avaliação psicológica.
O relato costuma apresentar-se ao cliente numa situação interactiva, e isto requer uma planificação de preferência dirigida pela ordem e clareza, na qual é recomendável, em primeiro lugar, recordar os motivos da consulta, em segundo lugar expor as alternativas avaliativas que se escolheram e, por último, apresentar os resultados. No final da exposição, tem-se em atenção as perguntas do cliente e, frequentemente, deixa-se tempo suficiente para a leitura do relato de maneira que se possam fazer os esclarecimentos que se considerem oportunos, para o que é necessário que, as explicações e o vocabulário sejam adequados ao nível escolar e à capacidade de compreensão de cada pessoa [p. 280].


Análises da Interacção

A resposta que se obtém de uma pessoa, perante uma pergunta formulada por outra, é dependente do comportamento de ambas, isto é, é dependente da interacção de ambas pessoas.
A consideração da informação como produto da interacção tem levado a rever assunções tradicionais que induzem expectativas tais como, que qualquer pessoa, pelo facto de ser questionada, disponibiliza de imediato a informação que se deseja ou se necessita, independentemente da motivação de quem é interrogado, do formato da pergunta, do comportamento verbal e não verbal ou do objectivo de quem pergunta.
Neste processo interactivo a informação é um fenómeno decorrente, da aquisição de conhecimento mediante métodos qualitativos, que decorre de uma estrutura complexa e dinâmica [p.281].

- O Entrevistador
O entrevistador é o responsável por dirigir e controlar os aspectos que fazem parte das sequências complexas do comportamento interactivo, isto é, de conhecer e controlar os comportamentos verbais e não verbais, de conduzir a informação procedente destes canais e controlar a distribuição de papéis, tal como assegurar o conhecimento sobre a natureza dos conteúdos inerentes à interacção.
O conhecimento teórico e as derivações avaliativas realizadas pelo entrevistador são imprescindíveis na realização das entrevistas os quais permitem uma planificação coerente da informação a recolher, tal como a distribuição do período de tempo em que ocorre. Este deve ainda controlar a diferenciação de papéis predeterminados, na medida em que a simetria e/ou assimetria social, profissional ou psicológica poderá ter um forte impacto na interacção que se venha a estabelecer entre ambos.
Um outro aspecto importante a considerar é a observação do tempo de reacção ou latências interverbalizacionais ou intraverbalizacionais. São estes parâmetros que permitem avaliar a consistência do comportamento do entrevistado, bem como a observação de alterações ao nível do seu comportamento habitual [p.281].
Latência intraverbalizações – pausas que o entrevistado introduz no seu discurso

Latência interverbalizações – tempo de silencio que decorre entre a finalização das verbalizações do entrevistador e o inicio das verbalizações do entrevistado
Os comportamentos não verbais (e.g. contacto ocular, sorrisos e movimentos de cabeça) e verbais (e.g. afirmações, compreensão ou simpatia) do entrevistador, devem ser emitidos apenas para incrementar o comportamento do entrevistado, como o objectivo de manter a natureza dos conteúdos, a quantidade de informação obtida, bem como a precisão da mesma. Estas características contribuirão para estabelecer uma relação empática entre ambos, a qual é muito valorizada pelos entrevistados.
Estes factores são da responsabilidade do entrevistador e requerem algum treino por parte deste [pp.282,283].

- O Entrevistado
No que respeita ao entrevistado destaca-se a relevância da sua disposição para facultar a informação requerida bem como o tipo de elaboração as respostas exigem.
Relativamente ao primeiro factor acima mencionado, estão associados como aspectos mais salientes: a motivação implicada na avaliação e a eficácia do entrevistador na aplicação dos recursos facilitadores (comportamento empático e utilização de reforços).
As potenciais fontes de erro mais frequentes por parte do entrevistado podem descrever-se nos seguintes termos: condições de alta motivação, que poderão conduzir a uma grande quantidade de informação e ao aumento da probabilidade de enviesamentos voluntários (e.g. falsear informação para proteger dados, circunstâncias ou outros aspectos considerados negativos ou pouco adequados) ou involuntários (e.g. enviesamento de respostas em função dos efeitos da desejabilidade social) e, baixa motivação ou rejeição da situação de avaliação, onde o erro mais frequente é a negação a qual poderá conduzir ao silêncio absoluto.
Em relação ao segundo factor, o tipo de linguagem utilizada e/ou a natureza dos conteúdos das perguntas influencia a complexidade de elaboração das respostas, na medida em que a falta de familiaridade com a linguagem utilizada poderá conduzir o entrevistado a responder de forma vaga, imprecisa ou a confirmar ou negar inadvertidamente as mesmas [p.283].


Garantias da Informação

Se não encararmos a entrevista como um método qualitativo (perspectiva construtivista), mas sim como um instrumento estandardizado de avaliação, torna-se necessário atender à sua fidelidade, validade e precisão, visto que tal influi na qualidade dos dados obtidos. Um outro ponto a ter em consideração é a possibilidade da pessoa entrevistada não oferecer a melhor informação possível acerca daquilo que lhe é perguntado. Tal deve-se ao facto de nos encontrarmos perante uma situação interactiva, em que factores tais como o conhecimento prévio relacionado com as perguntas, o formato, o comportamento de quem formula as perguntas e o tempo podem ser determinantes do resultado.
A realização de uma entrevista psicológica requer uma planificação prévia por parte de quem a realiza, uma vez que, à medida que se vai recebendo a informação é necessário elaborá-la (integrando a informação verbal e a não verbal) e não deixar que esta seja corrompida por enviesamentos. Esta planificação deve encontrar-se adaptada ao propósito da avaliação, pressupondo, ainda, um conhecimento adequado das teorias explicativas existentes. É importante, também, o modo como as questões são colocadas, uma vez que tal pode ter influência na precisão e tempo de resposta. Fica, assim, demonstrada a importância do treino do entrevistador no que respeita à obtenção de dados de qualidade [pp.283,284].

- Garantir a relevância da informação
A relevância da informação consiste no grau de ajuste entre a informação que se pretende e a informação conseguida. Existem dois aspectos fundamentais que contribuem para que esta garantia se verifique: o conhecimento da área a que se referem os conteúdos e a utilização de reforços. Assim, o entrevistador deve, de um modo geral, incentivar o entrevistado a direccionar as suas respostas para os conteúdos presentes no guião, fazendo uso de reforços verbais e não verbais. Tal requer da sua parte a capacidade de discriminar conteúdos e de ter um comportamento congruente/consistente. A primeira passa pela existência de um guião prévio, onde as unidades que são objecto de indagação se encontram bem explicitadas, e a segunda pela conservação de um padrão de comportamento no que se refere aos comportamentos utilizados como reforço, evitando o seu uso aleatório [pp.284,285].

- Assegurar a fidelidade e validade da informação obtida
Após a obtenção de informação pertinente, é necessário asseverar que esta se adequa àquilo que se pretendia averiguar. Assim, de forma a obter respostas concretas, existem duas estratégias a seguir na realização da entrevista: estratégias de amostra e de reconhecimento.
As estratégias de amostra consistem em recolher um número representativo de descrições sobre o comportamento da pessoa avaliada. Para tal, é-lhe apresentado um conjunto de perguntas específicas, o qual por um lado assegura uma maior exaustividade (dados mais completos) e por outro anula a tendência da pessoa para minimizar ou, pelo contrário, exagerar os dados [pp.285,286].
As estratégias de reconhecimento destinam-se a facilitar a identificação dos dados por parte do entrevistado. Para tal, é-lhe apresentada uma lista onde constam vários comportamentos relacionados com determinados hábitos, ao que ele deverá identificar aqueles que correspondem à sua conduta habitual. Frequentemente, é necessário recorrer a uma estratégia de amostra para criar uma lista específica, e só posteriormente se utiliza a estratégia de reconhecimento. Tal costuma consistir na recolha de amostras de comportamentos do entrevistado ao longo do tempo, bem como em diferentes situações e nos contextos nos quais a sua vida se desenvolve [p.286].
Pode-se revestir de particular dificuldade a tarefa de diferenciar a precisão da informação obtida das suas características relacionadas com a fidelidade e validade. No entanto, a opinião geral é a de que a precisão da informação se encontra relacionada com a acessibilidade dos conteúdos implicados nas questões. Assim, um conteúdo é acessível na medida em que quer o entrevistado, quer o entrevistador partilham os termos empregues na formulação das perguntas [p.287].

- O nível de estruturação
A estruturação da entrevista contribui para as garantias da informação recolhida, tal como se encontra comprovado por alguns estudos na área, segundo os quais entrevistas estruturadas são preferíveis a entrevistas não estruturadas no que respeita à obtenção de dados. As principais conclusões relativamente à comparação entre estes dois tipos de entrevista são, assim, as seguintes:
  • Os conteúdos têm um peso fundamental no que respeita à obtenção do índice de acordo entre entrevistadores. Deste modo, quando os conteúdos são dotados de maior sistematicidade e objectividade, o índice de acordo é maior;
  • Quando se comparam os resultados de formatos não estruturados com formatos estruturados, o índice de acordo é favorável à máxima estruturação. Todavia, este é modulado pelo peso exercido pelos conteúdos;
  • As entrevistas apresentam maior superioridade em termos de fidelidade, validade e precisão quando os conteúdos da planificação se encontram o mais especificados, sistematizados e estruturados possível [pp.287,288].

Concluindo, a entrevista afigura-se um procedimento muito útil no processo de avaliação, não obstante a exigência crescente de garantias, nomeadamente no que se prende com a replicabilidade dos resultados obtidos. Assim, além da importância atribuída ao grau de estruturação da entrevista, é essencial a preparação do entrevistador, tanto no que respeita aos aspectos relacionados com o conhecimento (modelos teóricos e metodológicos) como no que respeita às habilidades para manusear a informação e para se posicionar numa situação interactiva [p.288].



Ficha de Leitura III - O Auto-Relato

Los autoinformes
In R. Fernandez-Ballesteros (Ed.) Introducción a la Evaluación Psicológica I, (3ª ed.,pp.323-355). Madrid. Ediciones Pirámide


Um auto-relato refere-se a uma mensagem verbal que um sujeito emite sobre qualquer tipo de manifestação própria, não existindo dúvida de que é o procedimento mais antigo e simples no que respeita à obtenção de informação. O auto-relato é não só capaz de dar conta da experiência subjectiva, como também de uma imensa constelação de eventos tanto internos como externos e, tanto subjectivos como objectivos, o que o torna na categoria metódica mais diversa e rica e, também, mais complexa e difícil de valorizar do ponto de vista científico.
Os auto-relatos, como procedimentos de recolha de informação em psicologia, têm sido fortemente criticados, pois são produto da introspecção e da auto-observação. Utilizados durante os primeiros anos da psicologia em laboratório por estruturalistas e funcionalistas, como métodos para investigar os elementos da consciência, foram rejeitados posteriormente pelos condutistas Watson e Skinner e resgatados pelo condutismo da terceira geração.
Finalmente, o auto-relato foi sempre uma base para a avaliação das características psicopatológicas no modelo médico e, no modelo psicodinâmico, tem ainda em conta a mensagem verbal do sujeito como expressão de construções inconscientes.
Em resumo, o auto-relato pode ser considerado como a mais vasta categoria metódica em avaliação psicológica [p.232].


Características dos auto-relatos

Qualquer informação verbal ou resposta a uma pergunta sobre nós próprios envolve processos de memória, pensamento e linguagem. A informação na primeira pessoa está revestida de grande complexidade [p.233].
Simon et al. conceberam um modelo sobre o processamento de informação aplicável aos relatos verbais. Assim, sucintamente, a informação é armazenada em diferentes estruturas: memória sensorial de muito curta duração, memória de curto prazo (MCP) de capacidade limitada e memória de longo prazo (MLP) de capacidade e armazenamento ilimitados. Sabe-se que a estrutura a que se recorre para formular as informações verbais está ligada à MCP. Uma das limitações da MCP é a sua capacidade, visto que apenas nos dá informação de acontecimentos que se produzem no momento, logo, para se ter acesso a acontecimentos passados é necessário que estes sejam recuperados da MLP onde se encontram armazenados. Posto isto, os aspectos essenciais dos auto-relatos serão o tempo a que se refere a informação – auto-relatos concorrentes (acontecimentos produzidos no momento de relatar), presentes (que ocorrem num tempo presente pouco específico ou presente contínuo) e passados – e o tipo de evento que se solicite – evento armazenado da mesma forma em que se pergunta, ou seja, mais objectivo (e.g., Quando foi à escola pela primeira vez?), ou um evento que requer uma determinada transformação (e.g., A sua professora era exigente?) [p.233].
Os auto-relatos concorrentes (informação disponível na MCP) devem ser, teoricamente, mais fidedignos que os restantes, principalmente quando a informação solicitada requer transformações/elaborações sobre acontecimentos passados. Evidentemente, esta última pode também ser relevante, porém temos de ter em consideração que a fidelidade da informação depende tanto do tempo a que se refere como do nível de transformação que exige e se foi armazenado com esse nível de transformação no momento da produção. Conclui-se assim, que os auto-relatos serão mais exactos quer se refiram a acontecimentos mais actuais, quer tenham sido armazenados com o mesmo nível de elaboração que o solicitado (Nisbett e Wilson, 1977; Ericsson e Simon, 1980; Hollon e Bennis, 1981; Schwartz et al., 1998) [p.234].
Depreende-se, então, que existe uma vasta variedade de acontecimentos narráveis difíceis de categorizar ou classificar. Segundo Hersen e Bellack (1977), um indivíduo pode informar verbalmente sobre vários aspectos: condutas motoras, respostas fisiológicas, pensamentos ou cognições, emoções, e/ou experiências subjectivas relacionadas com determinadas acções ou comportamentos. Contudo, um indivíduo pode informar, igualmente, sobre outras coisas que requerem elaborações, tais como: descrições, qualificações, classificações ou construções sobre si próprio ou acontecimentos externos; as suas atribuições de causalidade (e.g., causa de um determinado transtorno); que estratégias ou sequências de acontecimentos usa para resolver um determinado problema; como descreve oralmente eventos pessoais ou externos; e, finalmente, as suas expectativas futuras de bem-estar, os seus planos e projectos [pp.234,235].
Partindo do modelo base apresentado podem deduzir-se duas das características principais dos auto-relatos: o seu grau de acessibilidade e a sua possibilidade de contrastação.
Tal como foi já referido, a informação que um indivíduo nos fornece teve de ser previamente processada, ou seja, esta tem que ser acessível ao indivíduo. No entanto, nem todos os processos internos são acessíveis (e.g., a percepção de um estímulo e todo o processo envolvido no tratamento e armazenamento dessa informação), logo, é imperativo precisar o grau de acessibilidade de qualquer operação mental [p.235].
Em relação à possibilidade de contrastação, há a referir que apenas parte dos acontecimentos, mencionados anteriormente, acerca dos quais o indivíduo nos poderá informar podem ser contrastados. Assim sendo, por um lado, os auto-relatos acerca de condutas motoras e fisiológicas poderão e deverão ser contrastadas mediante outras provas mais válidas e exactas, enquanto, por outro lado, os processos cognitivos e/ou subjectivos do indivíduo não poderão usufruir desta desejável contrastação. Neste último caso, o auto-relato passa a ser considerado o método directo e prioritário na hora de explorar os conteúdos mentais do ser humano [pp.235,236].
Contudo, é de salientar que, apesar de tudo o que foi aqui exposto, a mensagem verbal que o indivíduo emite sobre si próprio depende da informação solicitada pelo avaliador e das inferências – directas/isomórficas ou indirectas/inferenciais – que este faz acerca da informação fornecida [pp.236,238].
Então, o relato verbal de um acontecimento motor, cognitivo ou psicofisiológico pode ser entendido directa ou isomorficamente, como uma amostra do que o indivíduo faz, pensa, sente ou teoriza. Não obstante, os relatos verbais sobre si próprio podem ser também entendidos indirecta ou inferencialmente, quando destes o avaliador consegue extrair algo diferente do expressado pelo indivíduo, permitindo-lhe posicioná-lo dentro de um determinado grupo normativo [p.238].


Unidades de análise ou variáveis a avaliar

Um dos aspectos mais importantes a desenvolver faz referência à unidade de análise ou tipo de variável sobre a qual se pretende recolher informação.
Desde a perspectiva condutual os auto-relatos têm sido utilizados na recolha de informação sobre condutas-problema, até uma perspectiva mais actual em que são utilizados para a avaliação da conduta cognitiva e ainda de construtos cognitivos.

- Traços, dimensões ou factores
Os procedimentos de recolha de informação mais conhecidos, os testes de personalidade, não são nem mais nem menos que auto-relatos tipificados, construídos através de procedimentos psicométricos que permitem obter a posição de um sujeito numa determinada variável intrapsíquica, a partir da comparação das suas respostas com as de um grupo normativo. Estes instrumentos avaliam tão bem um conjunto de traços como um só construto (ver quadro 1) [pp.240,241].

- Estados
A posição situacionista enfatizou a especificidade do comportamento, isto é, este depende dos estímulos ou situações presentes (ver quadro 2) [p.241].

- Repertórios comportamentais
Desde a perspectiva comportamental rejeitam-se claramente à avaliação os auto-relatos de avaliação de personalidade por razões teóricas. No entanto, os avaliadores do comportamento aceitam o relato verbal dos sujeitos sobre a sua conduta motora, cognitiva e fisiológica, na medida em que estes auto-relatos suponham amostras ou repertórios de conduta e não construtos intrapsíquicos.
A avaliação comportamental dirige-se à análise funcional de transtornos de conduta, e nesse sentido, construiu-se uma série de auto-relatos com o objectivo de avaliar distintos transtornos de conduta como medos, depressão, etc. [p.242].
Os auto-relatos apresentam graus distintos de utilidade na psicologia clínica em função do tipo de dados que se pretende avaliar: são insubstituíveis numa primeira especificação do problema; são imprescindíveis na avaliação tanto de condutas-problema cognitivas como de repertórios básicos de conduta responsáveis pelo comportamento problemático; e são úteis na recolha de uma primeira informação sobre possíveis estímulos ambientais funcionalmente relacionados com as condutas-problema (ver quadro 3) [p.243].

- Repertórios cognitivos
Desde o enfoque cognitivo-comportamental e cognitivo é postulado que os processos cognitivos possam intervir e/ou explicar a conduta manifesta e as respostas fisiológicas.
Os três tipos de auto-relatos sobre construtos cognitivos mais utilizados são: os auto-relatos ligados à percepção que o sujeito tem do seu ambiente; as auto-mensagens ou auto-instruções que o sujeito se coloca; e repertórios relacionados com o funcionamento motivacional. Alguns destes auto-relatos estão na fase experimental e não apresentam garantias suficientes para ser utilizados na prática (ver quadro 4) [pp.243,244].

- Construções ideográficas e narrativa
Desde a perspectiva construtivista que se considera que a experiência subjectiva do sujeito, o seu conceito de si mesmo, como constrói a realidade e o significado que concede ao seu mundo pessoal, social e físico são os aspectos essenciais da avaliação psicológica, variáveis que serão indagadas por meio da expressão verbal do sujeito.
O objectivo da avaliação dirige-se à investigação de construções ideográficas do próprio sujeito e não às construções desenvolvidas pelos psicólogos, como ocorre nas quatro categorias anteriores (ver quadro 5) [p.244].
A maior parte destes instrumentos de autoavaliação requer uma formação específica.


Condicões do auto-relato

Deparamo-nos com algumas dificuldades no que respeita a fazer generalizações acerca dos auto-relatos, na medida em que, apesar de existirem algumas características comuns, se verifica uma grande variedade ao nível do seu conteúdo, nomeadamente no que concerne à forma de fornecer e obter informação, bem como ao seu tratamento [pp.244,245].
Assim, existem diferenças, por exemplo, no que se prende com a recolha de informação verbal de um sujeito, a qual poderá ocorrer em diferentes contextos. Vejamos assim:

- Auto-Relatos realizados em laboratório ou em consulta
O contexto artificial, que pressupõe a consulta do avaliador, é a forma mais frequente de se obter auto-relatos. Os questionários, inventários, escalas e outras técnicas de auto-relatos devem ser administrados em condições standard, uma vez que, desta forma, o sujeito não é incomodado no decorrer da sua prestação, nem as suas respostas são influenciadas por terceiros.
Os auto-relatos consideram-se como sendo de laboratório quando, em situação experimental manipulada em laboratório, o sujeito produz manifestações verbais sobre si, relativamente a uma situação concreta. Neste procedimento são utilizados: testes situacionais, role-playing e tarefas cognitivas. O objectivo principal destes testes é recolher amostras de condutas motoras no momento da sua ocorrência, podendo, no entanto, registar-se também auto-relatos sobre a experiência subjectiva dos sujeitos (mediante procedimentos idóneos). No caso dos dois primeiros, são procedimentos típicos de observação, nos quais a inquirição acerca da experiência subjectiva do sujeito pode ser realizada durante a situação experimental ou após esta.
O registo dos auto-relatos poderá ocorrer no decorrer da aplicação de uma tarefa experimental ou imediatamente após a sua aplicação, na medida em que o que interessa são os processos de pensamento que ocorrem no sujeito durante a resolução da mesma [pp.245,246].

- Auto-Relatos em situação natural
Os auto-relatos em contexto natural permitem que as manifestações verbais do sujeito relativamente às suas respostas motoras, fisiológicas e cognitivas ocorridas no dia-a-dia, sejam registadas no momento em que ocorrem ou pouco tempo depois. Caso o avaliador esteja presente, este poderá registá-las pessoalmente, caso contrário, o sujeito poderá efectuar anotações e entregá-las posteriormente ao avaliador. Este procedimento designa-se de auto-registo ou auto-observação. Pode, ainda, caber ao avaliador, não só acompanhar o sujeito em situações naturais e registar a sua conduta, mas também o que este pensa e sente [p.246].

Existem várias formas de obter os auto-relatos. Os tipos de perguntas mais comuns são os seguintes: a) máxima especificação da resposta e do estímulo que a provoca; b) pergunta em termos gerais, sem especificação situacional; c) seleccionar de entre uma lista as estratégias ou pensamentos que utilizou numa determinada situação; d) auto-observar e registar em tempo real um comportamento previamente definido; e) expressar em voz alta tudo o que lhe passa pela cabeça numa determinada situação; f) enumerar as pessoas importantes da sua vida e compará-las com os seus próprios conceitos; g) pedir-lhe que faça uma narração da sua vida ou, na entrevista, que nos fale da sua infância [p.246].
Estas questões implicam diferentes níveis de estruturação, como veremos a seguir.

- Perguntas estruturadas
Este tipo de perguntas é claramente definido, devendo o sujeito responder de forma também previamente definida. Existem auto-relatos mais gerais e outros mais específicos, na medida em que nos primeiros os comportamentos e situações acerca dos quais o sujeito é questionado não são tão claros, enquanto nos segundos são bem especificados [p.246].

- Perguntas semi-estruturadas
Auto-relatos com perguntas deste tipo apresentam uma estruturação mínima, permitindo, assim, uma maior flexibilidade e ideografismo. Assim, é muitas vezes concedida ao sujeito uma folha de registo na qual ele deve anotar o acontecimento acerca do qual pretende informar. A título de exemplo, considerem-se os auto-registos [p.247].

- Perguntas não-estruturadas
Aqui, existe total liberdade por parte do sujeito para fazer um auto-relato. No caso das entrevistas não-estruturadas ou da autobiografia, por exemplo, é requerida apenas uma pergunta muito vaga. A utilização de técnicas menos estruturadas é, pois, aconselhável nas primeiras fases da avaliação, devendo as mais estruturadas utilizar-se no momento de especificar e operativizar os comportamentos [p.247].

Todo o auto-relato pode ser considerado como um conjunto de respostas a uma série de estímulos. São quatro as alternativas de resposta mais frequentes dos auto-relatos: dicotómica, escalar, ordinal e aberta.
A resposta dicotómica diz respeito a uma afirmação normalmente seguida de uma dupla alternativa de resposta em termos de “Sim ou Não”. A resposta escalar diz respeito a afirmações seguidas de uma escala (de 3 ou mais pontos) de modo a determinar se um dado estímulo é aplicável ao sujeito e em que medida. A resposta ordinal diz respeito à ordenação dum conjunto de elementos por ordem de preferência. Finalmente, a resposta aberta usa-se quando se pretende conhecer mais amplamente o que a indivíduo pensa e sente, dando-lhe liberdade para responder como quiser [pp.247,248].

- Construção dos auto-relatos e tratamento dos resultados
Um último aspecto importante no respeitante aos auto-relatos refere-se à sua construção e à posterior manipulação a que irão ser submetidas as respostas dos sujeitos.
Três, são os tipos de estratégias utilizados na construção de um auto-relato ou de qualquer outra técnica de medida: racionais, empíricas e factoriais. Assim, a perspectiva racional pressupõe a existência de uma teoria de base. As estratégias empíricas partem de dados obtidos mediante a aplicação do instrumento a sujeitos que manifestem a característica em estudo, os quais devem variar sistematicamente, analisando-se, então, quais os itens que se revelam discriminativos. Por último, a análise factorial diz respeito à selecção dos elementos dos auto-relatos em função do seu peso factorial num determinado factor ou na sua adequação a matrizes multimétodo-multirrisco [pp.248,249].
Os resultados provenientes dos auto-relatos de um sujeito podem ser, quer comparados com os dados de outros sujeitos, quer tomados directamente. No primeiro caso (auto-relatos standard), a pontuação obtida por um sujeito é convertida numa pontuação normalizada que dá conta da posição relativa do sujeito num grupo de referência, não possuindo as respostas dos sujeitos uma significação em si mesmas se não forem comparadas com as de outros sujeitos. Já no caso de auto-relatos específicos (não standard), tais comparações não são possíveis, podendo a pontuação que deles se obtém ser usada das seguintes formas: a) como o nível de ocorrência de uma determinada conduta objecto de estudo; b) segundo o grau na qual o aparecimento duma conduta difere dum critério previamente estabelecido; c) segundo as diferenças supostamente devidas a um tratamento entre dois auto-relatos aplicados antes e depois deste se ter sido produzido.
Finalmente, as respostas abertas que aparecem em alguns auto-relatos devem ser estudadas através de uma análise de conteúdo, a qual é particularmente útil na análise das produções narrativas do sujeito [pp.249,250].


Principais Tipos de Auto-relatos

Os auto-relatos dividem-se em cinco categorias, consoante o procedimento utilizado para recolher a informação. Passaremos a ver, de seguida, as suas características.

- Questionários, Inventários e Escalas
Quando um conjunto de auto-relatos estruturados surge reunido sob a forma de uma lista, costuma adoptar a designação de questionário, inventário ou escala. Todos eles partilham o facto de possuírem um formulário de perguntas ou afirmações perante as quais o sujeito deve responder, quer segundo uma alternativa dicotómica («sim», «não»; «verdadeiro», «falso»), quer anotando o seu grau de conformidade segundo uma escala ordinal, quer elegendo ou ordenando os elementos segundo a sua preferência, quer segundo uma escala de intervalos adjectivada, ou com adjectivações adverbiais, ou numérica. No caso dos inventários, o sujeito pode, ainda, ter de ordenar os estímulos apresentados, quer obedecendo a uma ordem numérica, quer seleccionando o estímulo preferido e o rejeitado. Os estímulos seleccionados, sejam afirmações, actividades ou adjectivos podem ser pontuados segundo uma escala (numérica, gráfica ou verbal). As escalas, sobretudo as de adjectivos, podem apresentar diversos formatos: escalas acumulativas, de intensidade, de ordem, de escolha forçada, com ponto neutro ou com selecção ideográfica em formato de comparação [pp.250-253].
De um modo geral, os questionários implicam respostas expressas de forma dicotómica ou nominal, os inventários apresentam diversas possibilidades de resposta (nominal ou ordinal) e as escalas, assim como as listas de adjectivos e outros instrumentos semelhantes, apresentam respostas em intervalos.
A diferença entre estes instrumentos reside em dois aspectos: o tipo de estratégia utilizada para a sua construção (o que determina se avaliam construtos nomotéticos ou idiográficos) e o tipo de resposta que exigem ao sujeito (o que se prende com o tipo de escala – nominal, ordinal ou intervalar) [p.253].
Estes tipos de auto-relatos são os mais frequentes na avaliação tradicional (avaliação de traços), apresentando como principais características as seguintes: 1) são auto-relatos estruturados, quer no que se refere à pergunta formulada, quer no que se refere à resposta exigida; 2) avaliam comportamentos, ou classes de comportamentos, especificados a priori; 3) requerem informação acerca do que se verifica habitualmente e que o sujeito conhece bem; 4) apesar das perguntas se referirem a temas da vida real, são apresentadas de forma verbal e as respostas registadas de forma estruturada; 5) existem diversas formas de classificação, desde pontuações normativas a análises de perfil ou de conteúdo [p.253].

- Auto-registos
Ao contrário dos auto-relatos anteriores, os auto-registos servem para avaliar diversos comportamentos. Como principais características desta técnica temos as seguintes: 1) consiste numa técnica semi-estruturada, na qual se fornece ao sujeito uma folha de papel onde consta o comportamento específico que deve anotar, bem como as condições específicas em que deve fazê-lo, cabendo inteiramente ao sujeito o cumprimento de tal protocolo; 2) geralmente, o comportamento é anotado no momento em que ocorre, apesar de em certas ocasiões se poder pedir ao sujeito que o faça apenas depois da sua ocorrência; 3) é uma técnica de utilização em situações naturais [p.253].
De acordo com Ciminero, Nelson e Lipinski existem quatro dispositivos fundamentais de auto-registo: técnicas de lápis e papel, contadores de resposta, dispositivos de tempo e dispositivos electrónicos.
As técnicas de lápis e papel são as mais frequentemente utilizadas, dada a sua simplicidade e aplicabilidade. A mais simples é aquela em que figuram apenas duas unidades de tempo (dias da semana e horas do dia, por exemplo), devendo o indivíduo assinalar todos os intervalos de tempo em que o comportamento sujeito a análise ocorra. Este tipo de auto-registo pode requerer, também, a observação dos acontecimentos antecedentes (lugar em que ocorreu, situação, etc.) e consequentes (acções das pessoas presentes, pensamentos e sentimentos do sujeito, etc.) do comportamento que é objecto de estudo, podendo estes ser internos ou externos. Desta forma, existe a possibilidade de explorar as condições ambientais. A planificação do auto-registo reveste-se de grande importância, sendo constituída pelos seguintes passos: 1) selecção, denominação, definição e delimitação do comportamento que constitui o objecto de observação; 2) definição dos parâmetros relevantes à análise do comportamento (frequência, duração, intensidade, etc.); 3) delineação do formato de auto-registo; e 4) preparação do sujeito para a sua realização. Este último pressupõe três etapas: a) explicação pormenorizada dos comportamentos a ser observados; b) exemplificação; c) compromisso verbal ou escrito entre avaliador e sujeito [pp.253-256].
Os contadores de resposta constituem procedimentos mecânicos para registar a frequência de um dado comportamento, enquanto os dispositivos de tempo servem para registar a sua duração. Um exemplo deste último é o cronómetro. Dentro dos dispositivos electrónicos encontramos as câmaras de vídeo e os gravadores, os quais permitem um registo fiel do comportamento, ou simplesmente o seu relato [p.256].
Os auto-registos estão particularmente indicados nos seguintes casos: 1) quando se pretende especificar, quantificar e analisar um comportamento previamente detectado (por outros tipos de auto-relato); 2) quando se trata de comportamentos motores ou fisiológicos que se supõe estarem relacionados com mediadores internos; 3) quando se trata de comportamentos observáveis, mas íntimos; 4) em todos os casos em que a observação ou o registo do comportamento sejam inviáveis. Relativamente à sua validade, não existem dados suficientes que permitam uma especulação a esse respeito. No que respeita à sua fiabilidade, pelo contrário, encontra-se comprovada a sua debilidade [pp.256,257].

- Pensamento-em-Voz-Alta
As técnicas de pensamento-em-voz-alta apresentam como características mais relevantes as seguintes: 1) são técnicas não estruturadas (permitem qualquer tipo de resposta e não colocam questões específicas); 2) a verbalização ocorre em simultâneo com a produção do comportamento analisado; 3) tais verbalizações registam-se, geralmente, em laboratório ou em consulta, pois respondem a estímulos concretos administrados pelo examinador [p.257].
Os três procedimentos mais frequentes de recolha de pensamentos-em-voz-alta são: o monólogo contínuo, as amostras de pensamento e o registo de acontecimentos. A primeira consiste na verbalização de pensamentos e sentimentos, por parte do sujeito, simultaneamente à realização de uma determinada tarefa. A segunda passa por solicitar ao sujeito que, em intervalos de tempo seleccionados, verbalize o que está a pensar. A última, por sua vez, assemelha-se ao auto-registo na medida em que o sujeito deve assinalar quando o comportamento em análise tem lugar, o que pode ser feito recorrendo a um gravador ou câmara de filmar, apesar de tal levantar questões éticas, entre outras. No que concerne à análise dos dados obtidos através destes procedimentos, tal é possível através de uma simples categorização do conteúdo verbal em função da análise prévia da tarefa. Pode, ainda, ser realizada uma análise tendo por base um esquema teórico.
Finalmente, é necessário ter em conta que estas técnicas devem ser sempre complementadas por outras que permitam aumentar o seu controlo [pp.257,258].

- A entrevista
A entrevista constitui uma das técnicas básicas de avaliação e a mais importante em auto-relatos, na medida em que pressupõe um intercâmbio directo e presencial entre duas pessoas, em que se recolhem informações (referentes ao entrevistado ou acontecimentos relevantes) transmitidas pelo sujeito [p.259].
Na entrevista e como complemento a esta destacam-se outras técnicas, como a história clínica e a anamnese. Estas técnicas têm características muito semelhantes, na medida em que: se adaptam a quaisquer contextos (clínicos, escolares, organizacionais ou situações de investigação básica); podem diferir em grau de estruturação ou situação; é fundamental a participação pessoal do entrevistador; extrai-se informação tanto dos relatos verbais do sujeito como das suas respostas motoras e não verbais; permite obter os primeiros dados sobre o sujeito; é uma técnica longitudinal (aplica-se ao longo de todo o processo avaliativo e durante o tratamento) [p.259].

- A autobiografia
Na sequência da importância atribuída à subjectividade, a autobiografia (também designada historicamente, de história de vida ou revisão de vida) surge como uma técnica de avaliação qualitativa dessa característica (subjectividade), a partir da análise da narração do sujeito, o qual recorre à sua memória autobiográfica, sendo utilizada como método terapêutico [pp.259-261].
Svensson y Randall (2003) definem autobiografia como “a expressão narrativa da vida de uma pessoa interpretada e articulada por ela mesma”, pressupondo assim, auto-relatos através dos quais o sujeito se expressa, descreve, explica e interpreta as suas experiências subjectivas ao longo do seu ciclo de vida.
Alguns autores definiram algumas técnicas autobiográficas tendo essas, objectivos mais terapêuticos que avaliativos. Em termos avaliativos, a autobiografia, tem adoptado formas distintas, num processo contínuo de estruturação: desde a realizada espontaneamente pelo sujeito, como à estruturada pelo próprio investigador, com vista a efectuar comparações entre relatos de diferentes pessoas sobre um mesmo acontecimento ou circunstâncias da vida. Baltes y Deutchman (1991) (com o objectivo de terem algum material escrito), definem alguns temas como família, carreira, dinheiro, saúde e amor [p.260].
A autobiografia pode ser complementada recorrendo a técnicas que permitem investigar acontecimentos do passado a partir da história narrada, bem como validar os sucessos e situações narradas, recorrendo a diários, livros de autógrafos, colecções, cartas, fotografias e outros documentos pessoais.
O entrevistador também poderá recorrer a técnicas concorrentes, tais como Life Line ou a LL, para ajudar o sujeito a recordar acontecimentos importantes e as próprias experiências subjectivas.
A LL (versão de Schroots, 1996) consiste numa técnica gráfica, em que se distribui um espaço com um eixo de duas coordenadas. A linha horizontal corresponde ao período de tempo em que se marca a idade do sujeito desde o nascimento até ao momento da avaliação (reservando-se um espaço à direita para indicação de perspectivas futuras) e a linha vertical indicará dois espaços de expressões subjectivas (superior e inferior) do sujeito em relação à linha horizontal, sendo esses espaços representativos de emoções positivas (superior) e negativas (inferior). A distribuição é efectuada pelo próprio sujeito, pedindo-lhe que assinale acontecimentos da sua vida que tiveram efeitos emocionais positivos e/ou negativos [p.260].
Para além desta técnica, poderão ser evocadas circunstâncias que tenham provocado alterações importantes e irreversíveis na vida do sujeito, como forma de ajudar a recordar acontecimentos biográficos.


Algumas questões sobre a qualidade dos auto-relatos

Pelas suas características muito próprias (já relatadas ao longo do relatório) não é fácil avaliar a qualidade dos auto-relatos, na medida em que estes variam significativamente ao nível das suas características: variáveis que avaliam; operações internas que exigem do sujeito; o momento em que se alega o acontecimento descrito; o tipo de elaboração ou inferência que o avaliador realiza; tipo de perguntas que contém; tipo de respostas que exigem. Ao verificar a qualidade destes instrumentos deveria adicionar-se o tipo de critério através do qual se estabelece a sua qualidade científica [p.261].
Os auto-relatos, para além dos erros próprios da observação (reactividade, dependência do entendimento do observador, etc.) e na medida em que o auto-observado pressupõe uma execução ou atributo do próprio observador, estão sujeitos a uma série de distorções (fontes de erro) independentemente do seu conteúdo (do que se pretende investigar) [p.262].
Identifica-se como fonte de erro a distorção de resposta, a qual poderá ser entendida segundo duas perspectivas: como factor distorcionante dos resultados dos auto-relatos e como variáveis de personalidade (estilos de resposta). Na origem deste tipo de distorção considera-se: que o sujeito de forma consciente, tenta falsear os resultados do auto-relato - simulação; que o sujeito, involuntariamente, se auto-descreve em consonância com a imagem socialmente esperada - desejabilidade social; que o sujeito responde mais em função do tipo de alternativa de resposta que se encontra no auto-relato do que atendendo ao conteúdo da pergunta formulada - tendências de resposta.
A simulação é uma das mais importantes fontes de erro. Assim, alguns investigadores procuram formas de controlar este tipo de distorção recorrendo a procedimentos como, apelar à cooperação e honestidade dos sujeitos (em questionários ou contacto pessoal) e construindo auto-relatos que permitam detectar “mentirosos” e assim eliminar os questionários, bem como corrigir os resultados mediante pontuações de escalas (a escala “L” de MMPI, “Si” de EPI, de Eysenck, que permitem detectar falseamento de respostas). Mais recentemente a simulação foi conceptualizada como uma alternativa bipolar (impressão negativa e impressão positiva) as quais podem ser controladas através de escalas especiais em questionários de personalidade (MMPI ou 16-PF) [pp.262, 263].
A desejabilidade social foi detectada em respostas a auto-relatos clássicos (Edwards, 1975), mas também em auto-relatos condutais (Fernández-Ballesteros, Pérez Pareja y Maciá, 1981). Segundo Bardburn y Sudman (1979), para além de um factor de erro, a desejabilidade social deverá ser considerada como um indicador de adaptação social do sujeito [p.263].
As tendências de respostas estão relacionadas com o formato adoptado para os auto-relatos, os quais diferem no formato de resposta utilizado: respostas dicotómicas em que se verifica uma tendência do sujeito para o consentimento (respostas afirmativas) às questões formuladas; respostas de escalas adjectivadas de três ou mais alternativas de resposta, verifica-se uma tendência para responder bem no centro ou bem nos extremos da escala, independentemente das questões formuladas [p.263].


Conclusão

Podemos concluir que os auto-relatos são o método de recolha de informação mais utilizado na avaliação psicológica, constituindo a base da maioria dos questionários, inventários, listas de adjectivos, entrevistas, etc. Dadas as suas características e formas diversificadas constituem um recurso bastante útil, tanto na área de investigação como em trabalhos práticos. No entanto, esta técnica conta com determinadas fontes de erro (distorções) que deverão ser controladas.
Com vista a melhorar a qualidade dos auto-relatos (e consequentemente, torná-los mais fiáveis), deverão ser consideradas aspectos como: motivação dos sujeitos em dar respostas exactas; a actualidade dos acontecimentos relatados; experiência do sujeito, tanto em relação à situação, como à conduta a ter na informação a relatar; mínimo de inferências sobre o acontecimento relatado (excepto se for esse o objecto do estudo); mínimo de inferências, por parte dos avaliadores, sobre os dados dos auto-relatos e questões colocadas de forma mais específica e menos ambíguas [p.264].











Questionário de Personalidade MMPI

A prova MMPI (Minnesota Multiphasic Personality Inventory), que constitui um importante instrumento de psicodiagnóstico nas actividades clínicas, de orientação e selecção, foi criada por S. R. Hathaway e J. C. Mckinley, tendo sido publicada pela primeira vez em 1943 pela University of Minnesota. Só mais tarde, em 1945, foi autorizada a sua publicação à Psychological Corporation.
A população a que se destina compreende os indivíduos com pelo menos 16 anos e o 6º ano de escolaridade. O seu objectivo é proporcionar uma avaliação subjectiva de algumas das mais importantes dimensões da personalidade, relacionadas com a adaptação pessoal e social do sujeito, pelo que se considera uma prova multidimensional.
Os itens são avaliados segundo três tipos de escalas: escalas de validação, escalas clínicas e escalas adicionais. Relativamente ao primeiro tipo encontramos a escala Interrogante (?), a de Sinceridade (L), a de Pontuação de Validade (F) e a do Factor Corrector (K). No que respeita ao segundo tipo existem as escalas de Hipocondria (Hs), Depressão (D), Histeria (Hy), Desvio Psicopático (Pd), Masculinidade-Feminilidade (Mf), Paranóia (Pa), Psicastenia (Pt), Esquizofrenia (Sc), Hipomania (Ma) e Introversão Social (Si). Já por último, temos as escalas de Força do Eu (Es), Dependência (Dy), Dominância (Do), Responsabilidade (Re) e Controlo (Cn).
Os itens acima mencionados abrangem as seguintes temáticas: saúde, sistema nervoso, sensibilidade, família, hábitos, ocupações, educação, atitudes, afectos, fobias, estados de ânimo, entre outros.
Na sua edição original (a americana), a prova apresenta-se em três formatos: a forma individual, a forma colectiva e a forma R. A forma individual, que foi a primeira a ser utilizada, é constituída por 550 frases impressas separadamente em pequenos cartões, que o indivíduo deve ler e separar em três grupos (Verdadeiro, Falso e Não sei). Quanto à forma colectiva, esta contém 566 elementos, os quais se apresentam num caderno, devendo o sujeito responder numa folha de respostas. A forma R, por sua vez, é constituída por 399 itens, partilhando do mesmo conteúdo que a forma colectiva, apesar de disposto de forma diferente. Consoante a forma, a duração de aplicação da prova varia entre 45 e 60 minutos.
A escala aqui anexada refere-se à forma colectiva, sendo composta por um caderno com 566 itens, uma folha de respostas e de perfil para a correcção manual, e uma folha de respostas para a correcção mecanizada.





Ficha de Leitura IV - A Observação

A observação
In R. Fernandez-Ballesteros (Ed.) Introducción a la Evaluación Psicológica I, (3ª ed.,pp.323-355). Madrid. Ediciones Pirámide


A observação, em termos de avaliação psicológica, constitui uma estratégia fundamental do método científico.
Este artigo propõe-se efectuar uma análise desta estratégia de avaliação, recorrentemente utilizada por qualquer das técnicas ao dispor da ciência enquanto forma de recolher informação, não descurando as características necessárias para que seja considerada um método científico.
Assim, a observação consiste na percepção deliberada de comportamentos de um determinado sujeito, por um observador treinado (participante ou não participante) que poderá incluir pessoas próximas do observado. Esta poderá ser realizada em situação natural ou situação artificial, mediante um protocolo ou uma folha de registos previamente preparada em função da estrutura pretendida, com vista ao registo sistemático dos comportamentos observados e que possam suscitar respostas. Neste método, o observador poderá efectuar inferências de diferentes níveis relativamente ao facto em observação: podem observar condutas; inferir atributos às condutas; observar um facto presente que representa a expressão de condutas passadas.
A definição destas dimensões de observação permitem ainda, definir a qualidade e rigor da observação, considerando se esta será mais rigorosa quando se observam em situação natural unidades de análise modulares com baixo nível de inferências, registadas no momento em que ocorrem, através de um protocolo estruturado e por um observador treinado não participante [pp.162,163].


Unidades de análise (O que observar?)

Segundo Fiske, o conceito de unidade de observação pode ser abordado de diferentes formas. Por unidade pode entender-se o objecto que se pretende estudar (uma pessoa, grupo, instituição, etc.). Não se pretende avaliar as pessoas como objectos, mas sim as suas manifestações de conduta. Assim, o objecto observado seria um evento de conduta, que acontece num contínuo temporal e, por isso mesmo, neste caso a unidade poderia referir-se a um segmento concreto no tempo, mais ou menos amplo, do contínuo da conduta.
O observador pode realizar, ainda, distintos níveis de inferência (descrição, classificação, explicação) no que diz respeito às unidades de acto observadas. Podem, igualmente, ser consideradas unidades de análise as interacções entre as actividades das pessoas e os elementos ambientais - estímulos físicos e sociais (ver anexo I) [p.163].

- Contínuo do comportamento

Numa perspectiva ecológico-naturalista o objectivo é observar todo o contínuo de conduta com o propósito de registar, de forma descritiva, a maior parte dos eventos que ocorrem num contexto natural em amplas unidades de tempo. Não existe, assim, qualquer especificação prévia relativamente ao que se vai observar.
Convém referir que mesmo quando se elaboram categorias de conduta e/ou se especificam quais as unidades a observar, requerer-se-á sempre uma observação assistemática [pp.163,164].

- Atributos
Os psicólogos do traço, psicodinâmicos e construtivistas utilizaram a observação como base para a obtenção de atributos e para o exame de outras construções teóricas. Assim, inferem-se determinadas características a partir da observação da conduta manifesta – verbal, não verbal ou espacial. Na observação destas unidades podem utilizar-se intervalos temporais amplos.
Dado que a utilização de atributos como unidades de análise estão em relação com marcos teóricos concretos, alguns autores não consideram estas como unidades apropriadas de análise da observação sistemática [p.164].

- Condutas
De acordo com Cone e Foster, a definição das unidades de observação da conduta manifesta varia num contínuo de molaridade-molecularidade, uma vez que qualquer conduta pode ser descrita numa série de aspectos de maior ou menor especificidade e poderão formar parte de categorias de conduta como a desatenção, por exemplo [p.164].

- Interacções
Por vezes, a unidade a observar não está formada por umas condutas descritas previamente, a não ser por uma relação sequencial entre dois eventos procedentes de duas ou mais pessoas ou entre uma pessoa e uma dimensão ambiental. Estas unidades de análise são fundamentalmente utilizadas pelos avaliadores que perseguem a indagação das relações funcionais entre eventos [p.165].

- Produtos de conduta
Grande parte da observação em avaliação realiza-se sobre produtos de conduta. Observa-se o resultado de um conjunto de actividades internas ou externas que os sujeitos realizaram em situações tanto naturais como artificiais.
Dois tipos fundamentais de observações podem incluir-se: os produtos de conduta procedentes das execuções do sujeito no passado, (medidas não reactivas), e os produtos de execuções que o sujeito realiza a partir de determinadas tarefas que o avaliador lhe apresenta [p.165].
Como exemplo temos primeiro as medidas de erosão, que se referem a destruições, danos ou outras alterações físicas que existem no ambiente habitual do sujeito e que se terão originado como produto da sua conduta.
Por outro lado, as medidas de “rastreio” correspondem aos produtos da conduta do sujeito ao utilizar objectos ou ao consumi-los (por ex. as bebidas consumidas por um alcoólico).
Por último, as medidas de arquivo, as mais interessantes na avaliação, são aquelas que foram registadas em documentos ou relatos, geralmente de forma escrita. Podem incluir-se dados tão importantes como os cadernos escolares, pinturas ou desenhos, as notas do curriculum académico e muitos outros documentos pessoais que, procedentes do passado, são o resultado da realização de determinadas actividades por parte do sujeito na sua vida quotidiana passada e que podem resultar de um grande interesse na avaliação psicológica [p.166].

- Unidades de medida (o que medir da unidade?)
Segundo Johnston e Pennypacker, não devem confundir-se as unidades de observação com a sua especificação quantitativa. Assim, independentemente de observar comportamentos, interacções, atributos, na altura de dar uma versão quantificada das mesmas, terá que se proceder à selecção das unidades de medida que vão ser adoptadas [p.166].

Ocorrência - Em certas situações o que interessa é a ocorrência de um evento, isto é, a constatação de que um fenómeno se dá ou não. Neste caso, o tudo ou nada, na aparição da unidade de análise em questão não se relaciona com nenhum outro sistema de medida, como por exemplo o tempo. A ocorrência é a dimensão mais simples do observado [pp.166,167].

Ordem - Segundo Anguera, a ordem consiste na explicitação das sequências das distintas ocorrências de conduta [p.167].

Frequência - Principalmente utilizada no registo de condutas, classes de conduta e interacções, a frequência faz referência à extensão na qual um determinado evento ocorre numa unidade de tempo, que, segundo Kazdin, apresentam uma série de características: a frequência ou taxa de aparecimento de um evento é uma medida fácil de obter quando se trata de unidades bem definidas; procura reflectir, melhor que nenhum outro parâmetro, alterações através do tempo; expressa o montante total de acontecimentos de um determinado ciclo que terá sucedido durante o tempo que durou a observação [p.167].

Duração - Não interessa só obter dados sobre a frequência ou a ordem de uma determinada conduta, mas também sobre a sua duração.
As propriedades temporais de um determinado evento, podem ser três: o intervalo entre o começo e o final de uma determinada actividade, que é a duração propriamente dita; o intervalo entre a apresentação de um estímulo e o começo de uma resposta, refere-se à latência da resposta; o intervalo entre as manifestações sucessivas observadas diz respeito ao intervalo inter-resposta [p.167].

Dimensões qualitativas - A medição da intensidade, magnitude ou adequação de uma unidade de observação pode realizar-se de formas distintas. Assim, a intensidade ou magnitude da agressão física pode estimar-se mediante a magnitude do dano infligido ao agredido.
Com a medição da adequação de uma conduta faz-se referência à sua apropriação social ou então ao seu grau de funcionalidade, ou seja, até que ponto uma actividade consegue ou não os objectivos propostos, medido através dos acertos ou erros que o sujeito faz ao executar uma tarefa e, portanto, são as características principais com que são valorizados os testes de execução [p.168].


Técnicas de Registo (Com que observar?)

Uma das condições da observação sistemática que permite a replicabilidade e controlo dos resultados é a forma como é estruturado o sistema de observação. É de referir, no entanto, que o modo como se realiza esta sistematização depende em grande parte do referencial teórico do observador [p.168].
Por outro lado, o nível de estruturação também pode variar dependendo da fase em que se efectua a observação. Posto isto, segundo Anguera (1981, 1990), a observação dever-se-á realizar segundo um plano em que, num primeiro momento, esta será realizada com o intuito de perceber quais os eventos relevantes que devem ser observados no objecto de avaliação. Após esta etapa, proceder-se-á então a uma observação sistemática, para a qual dispomos do auxílio de vários instrumentos de recolha de dados observacionais, os quais vão ser especificados abaixo [p.169].

- Registos Narrativos
No caso deste instrumento, o observador limita-se a tomar notas escritas ou orais, nas quais descreve/narra a situação observada. Estes registos apresentam um formato flexível, permitindo assim recolher informação acerca de variadíssimas características e circunstâncias das actividades do indivíduo – tempo, lugar, pessoas presentes, entre outras. Os registos narrativos são, frequentemente, auxiliadores no momento da elaboração de catálogos de conduta, sistemas de categorias ou de interacções [pp.169, 170].
Porém, a fiabilidade deste tipo de registos poderá ser afectada por duas fontes de erros (Cone e Foster, 1982). A primeira diz respeito ao facto dos observadores poderem utilizar diferentes descrições verbais para um mesmo comportamento ou padrão de comportamentos. A segunda, decorrente da primeira, refere-se à possibilidade de categorizar ou dar significados diferentes aos mesmos acontecimentos. Não obstante, estes tipos de erro poderão ser controlados se os observadores forem previamente treinados no uso de uma mesma linguagem descritiva das possíveis situações que se possam vir a observar [pp.169,170].

- Escalas de apreciação
As escalas de apreciação, ou estimação, são utilizadas quando se pretende quantificar, qualificar ou classificar as actividades do sujeito mediante definições comportamentais específicas, dimensões ou atributos de personalidade previamente determinados. São vários os tipos de escalas de apreciação, todavia todas elas pretendem avaliar em que medida uma determinada descrição é aplicável a um sujeito. O observador, geralmente, desempenha um papel participativo, realizando a observação em períodos distintos de tempo e podendo esta ser replicada posteriormente.
Estas escalas são úteis na medida em que nos possibilitam uma primeira aproximação com os comportamentos problemáticos e adaptativos do indivíduo, assim como o são os relatos de amigos próximos sobre o mesmo. Contudo, existe a possibilidade de o observador se deixar contaminar por opiniões externas e se provoque um efeito de halo que influencie, indevidamente, observações futuras [p.170].

- Protocolos/Registos observacionais de conduta
Os protocolos observacionais de conduta, também denominados por listas de características, abrangem uma série de condutas, classes de condutas, assim como as relações funcionais entre estas e outros acontecimentos contextuais. Os mais frequentes são:
  • Registo de condutas - Este tipo de técnica permite-nos constatar a ocorrência ou frequência de variadíssimas condutas previamente definidas como “condutas objectivo”, as quais foram seleccionadas de acordo com as informações recolhidas junto do observado e pessoas próximas do mesmo [pp.171,172].
  • Matrizes de interacção - Este procedimento está dirigido, exclusivamente, para a constatação das interacções produzidas entre o ambiente social e o comportamento, isto é, interacções produzidas entre dois ou mais indivíduos. Assim, em diversas ocasiões requer-se não só a avaliação de um sujeito, mas das interacções entre indivíduos ou entre um indivíduo e um grupo [pp.173,174].
  • Mapas de condutas - Segundo Anguera (1987), um mapa de conduta, também denominado de “formato de campo”, consiste numa observação sistemática de condutas específicas verificadas num determinado espaço (lugar, ambiente) e tempo (e.g., frequência da conduta num dado intervalo de tempo), tendo como objectivo analisar as relações entre condutas e variáveis ambientais [p.174].
- Códigos ou sistemas de categorias (ou esquemas de codificação)
São considerados os procedimentos de observação mais sofisticados, visto que, segundo Anguera (1991), a sua “estrutura proporciona suporte e cobertura àquelas condutas que, mediante a operação de filtragem correspondente, são consideradas relevantes de acordo com os objectivos da investigação”. Estes implicam a denominação, delimitação e definição de categorias dos eventos comportamentais e/ou contextuais que se pretendem observar, assim como articulam e regulam o modo como deve ser realizada a observação [pp.174-178].
Este procedimento, de acordo com Haynes (1979), comporta várias vantagens, entre elas: permitem um limitado mas amplo número de actividades a observar; proporcionam informação sobre comportamentos e/ou interacções complexas; permitem a comparação entre sujeitos e investigações; simplificam o trabalho de observação, uma vez que o treino num código pode servir para mais do que um caso; por ser um procedimento estandardizado apresenta maiores garantias científicas.

- Registo de produtos de conduta
Sendo os dois grandes tipos de observação, como foi referido anteriormente, os dados observáveis não reactivos e os resultados de execuções em situações naturais e artificiais, estes implicam, na sua maioria, o registo de medidas físicas (e.g., metros quadrados de relva destruída, quilos de lixo recolhido, número de garrafas de álcool consumidas por um alcoólico). O registo destes produtos/resultados é feito considerando o dia, a hora, o lugar, a situação, entre outros.
Outros resultados exigem não só medidas físicas mas também a valorização da qualidade do produto resultante da actividade humana, sendo necessário, para este efeito, outros conhecimentos que vão muito além da pura observação [p.178].

- Procedimentos automáticos de registo
Este procedimento foi elaborado para garantir o máximo de rigor científico na observação, facilitando a tarefa do observador, evitando os enviesamentos decorrentes das anotações do próprio observador e, também, atenuando os efeitos da reactividade dos indivíduos observados [p.178].
Assim, estes dividem-se em três grandes grupos:
  • Meios técnicos de registo - Permitem registar automaticamente eventos de conduta através de categorias previamente estabelecidas, cujos dados podem ser armazenados num computador, facilitando a análise dos resultados relativamente à ocorrência, duração, frequência, sequência, simultaneidade, entre outros, dos comportamentos a avaliar [pp.178,179].
  • Aparelhos de registo à distância ou ocultos - Com a finalidade de maximizar a validade externa dos dados obtidos em laboratório, foram elaborados dispositivos telemétricos (transdutor e radiotransmissor), que os sujeitos transportam consigo, permitindo o registo à distância de respostas fisiológicas e condutas motoras. Por outro lado, a fim de diminuir o constrangimento do sujeito face ao observador, utilizam-se frequentemente procedimentos tais como o magnetofone/gravador, câmara de vídeo ou espelhos unidireccionais. Ambas as técnicas levam a resultados mais fidedignos. No entanto, só podem ser administradas mediante o consentimento informado do indivíduo observado ou o dos seus representantes legais [p.179].
  • Observação mediante aparelhos - São técnicas que visam a amplificação da resposta, sendo esta registada através de procedimentos mecânicos, eléctricos e electrónicos, que não necessitam da presença do observador humano [p.179].
Para terminar, é importante referir que na hora de seleccionar uma técnica de registo para realizar a observação, deve-se ponderar qual a mais apropriada e qual a que melhor se poderá enquadrar no tipo de observação. É também de frisar que se podem utilizar técnicas em simultâneo.


Amostra (Quando e/ou a quem observar?)

Uma das tarefas que o observador deve empreender será a de estabelecer não só o que observar, mas também quando e como fazê-lo. Na medida em que a observação acarreta custos e limitações consideráveis, nomeadamente no que respeita ao tempo de observação e à selecção dos sujeitos, é necessário obter amostras significativas e representativas dos acontecimentos observados, segundo unidades de medida previamente seleccionadas.
Quando não é possível a realização de registos contínuos, o avaliador deverá considerar os seguintes factores relativos ao tempo de observação:
  1. Duração do tempo de observação (e.g., um dia, uma semana, um mês, etc.);
  2. Frequência da observação (e.g., uma hora diária ou durante um período de 15 minutos diários);
  3. Inicio e término dos períodos de observação, bem como a sua possível variabilidade temporal;
  4. Utilização ou não de intervalos de tempo para a observação e registo;
  5. Observação ou não em diversos contextos situacionais;
  6. Selecção do sujeito e do momento em que se regista o comportamento alvo de estudo [pp.180,181].
Passamos a analisar os diferentes tipos de amostra.

- Amostra do tempo
A observação compreende uma série de “tempos” (duração do tempo de observação; número de sessões a realizar; periodicidade; intervalos de observação/registo), os quais dependem dos objectivos da observação, bem como da disponibilidade do(s) sujeito(s). Quando não existem dados suficientes para estabelecer a duração e frequência da observação, dever-se-ão realizar períodos de pré-observação assistemática para obter a sua delimitação.
Quando os comportamentos objecto de estudo são muito frequentes, e tendo em conta que não é possível observar e registar em simultâneo, verifica-se a necessidade de efectuar intervalos de tempo: um primeiro período destinado à observação dos comportamentos e um segundo destinado ao seu registo.
Powell, Martindale y Kulp (1975) definiram três tipos de intervalos de tempo: intervalo total (não se regista a conduta caso esta não ocorra no intervalo total de tempo estabelecido), intervalo parcial (regista-se toda a conduta que ocorre numa fracção de intervalo de observação) e momentâneo (registam-se condutas ocorridas num momento predeterminado do intervalo de observação) [pp.181,182].
Duração da Observação – inversamente proporcional à frequência do acontecimento observado.

Sessões de Observação – dependem do tipo de acontecimento a registar e da complexidade do instrumento de registo utilizado.

Períodos de Observação – dependem do caso em avaliação e particularmente das situações nas quais ocorrem o comportamento alvo de estudo.

Intervalos de Observação/Registo – não deve exceder os 10 s de observação em amostras de intervalo parcial; 5 seg. para amostras de intervalo total; até 1 min. para amostras momentâneas.

- Amostras de situações
Este tipo de amostra tem como finalidade comprovar o universo de generalização das situações, na medida em que os comportamentos poderão estar ou não relacionados com o contexto em que ocorrem.
Poderá, ainda, revestir-se de particular interesse a relação existente entre ambiente e comportamento [p.183].

- Amostra de sujeitos
A amostra de sujeitos está intimamente relacionada com os restantes tipos de amostra, pois no caso de ser necessário observar mais do que dois sujeitos, é aconselhável a utilização desta em simultâneo com a amostra de intervalo, isto é, a cada sujeito deverá corresponder um determinado intervalo de observação [pp.183,184].
Anguerra (1981) e Haynes (1978) propõem as seguintes estratégias:
  • Selecção localizada de indivíduos – Consiste na escolha dos sujeitos de forma estratificada (em função de seu sexo, idade ou qualquer outro critério de conduta), procedendo-se, de seguida, à observação dos sujeitos escolhidos em função dos intervalos estabelecidos;
  • Selecção de intervalos de observação em função do número de sujeitos a observar – Poderá dispensar-se o recurso a uma amostra quando se verifique há existência de poucos sujeitos, aplicando-se os intervalos a cada sujeito, de forma rotativa;
  • Eleição de um critério de razão fixa ou variável – consiste em ordenar os sujeitos tantas vezes quanto seja possível em função do número de intervalos e do período total de observação.
  • Rotação do critério de eleição dos sujeitos a observar – tem por objectivo recolher informação acerca de todos os sujeitos [p.184].
Sintetizando, o avaliador deverá recolher uma amostra suficientemente significativa de forma a garantir a generalização dos resultados procedentes dos sujeitos observados ao conjunto de sujeitos que constitui a população objecto de interesse [p.184].


Lugar da observação (Onde observar?)

O método por observação tem como objectivo a recolha de dados sobre os comportamentos de um sujeito no local habitual onde ocorrem (observação em situação natural). No entanto, nem sempre isso é possível, sendo então utilizadas técnicas de observação em situação controlada em laboratório (observação em situações análogas).
Tal como refere Nay (1979) para que a observação seja realmente natural, o observador não deveria estar presente, na medida em que ao introduzir-se no contexto da observação poderá ser uma importante fonte de erros, e de reacção em quase todo o tipo de observação, tornando assim, a observação artificial [p.184].

- Observação em situações naturais
Nos últimos anos tem-se verificado um crescimento na importância atribuída à avaliação realizada a partir de observações em contextos naturais, justificado pelo facto da psicologia atribuir maior legitimidade à validade externa (generalização de resultados) em comparação com a validade interna (investigação experimental).
Para que a observação seja considerada em contexto natural, esta deverá ocorrer num ambiente habitual em que o sujeito observado se desenvolve e sem qualquer interferência por parte do avaliador.
A observação em contexto natural é mais frequente, segundo Haynes y Wilson (1979), para situações familiares, por exemplo para avaliar comportamentos maternos e/ou paternos, comportamentos adequados ou inadequados das crianças e interacções pais/filhos. Para estas situações são utilizados dois métodos de observação: Behavior Coding System (BCS) de Patterson e tal. (1975) e o Código de Observação (SOC) de Whaler, House y Stambaugh (1976). O código BCS contem uma série de interacções que ocorrem na família e apresenta elevadas garantias cientificas, o código SOC, mais direccionado para comportamentos perturbados, permite a observação em contextos escolares e é igualmente aplicado em contextos familiares.
No entanto, e dado o interesse manifestado por certas instituições relativamente a este tipo de avaliação, têm sido desenvolvidos métodos de observação para aplicação em instituições psiquiátricas, enfermarias hospitalares, centros de cuidados especiais (atraso mental, autismo, etc.), prisões, lares de idosos. O mesmo se tem verificado em áreas comunitárias (restaurantes, supermercados, jardins, profissões, etc.) [p.185].
Apesar deste interesse crescente, verificam-se algumas limitações metodológicas e de aplicabilidade prática, na medida em que: os próprios sujeitos em avaliação podem recusar a observação na sua vida real; os comportamentos a observar poderão ser de carácter privado, logo não observáveis ao nível ético; haver inconveniente na deslocação do psicólogo para o ambiente natural correspondente à observação; o elevado custo da observação em contexto natural (devido à necessidade do elevado número de horas de observação e de observadores, para que se obtenham registos com o mínimo de garantias da sua estabilidade e objectividade).
Assim, segundo Nelson (1983) a observação em situações naturais poderá ser mais vantajosa quando realizada por pessoas próximas do observado (controlando-se a objectividade), ou quando o avaliador é parte constituinte do meio natural (contexto escolar, institucional e comunitário), meios de tradução (filmagens, reproduções, espelhos unidireccionais, etc) o qual requer consentimento informado, ou ainda, através da aplicação de testes de execução e registo de respostas em situações naturais. Uma outra forma, é através de vestígios de conduta (diários, cartas, etc.), os quais implicam custos elevados e requerem autorização quer do próprio sujeito em observação, como de pessoas relacionadas com ele [p.186].

- Observação em situações artificiais
A observação em situações artificiais implica a criação de um contexto artificial (ambiente envolvente, introdução de estímulos, etc.) para uma determinada situação (objecto de estudo) com o propósito de observar a actividade do sujeito, recorrendo a métodos análogos ou artificiais.
A validade da observação em contexto natural dependerá do grau de artificialidade e da situação de observação utilizadas, sendo que é questionável, se o comportamento do sujeito em condições artificiais será semelhante ao que ocorre na sua vida real. Considera-se no entanto que estas apresentam uma maior validade interna, na medida em que as situações ocorrem em situação experimental controlada e por outro lado perdem validade externa e consequentemente a possibilidade de serem generalizadas [p.186].
Vejamos agora duas formas distintas de reproduzir artificialmente uma situação natural. A primeira consiste em construir provas mais ou menos estandardizadas e estruturadas, através das quais se introduzem estímulos ou situações complexas, com o objectivo de observar o comportamento do sujeito com o maior realismo possível. Referimo-nos aos testes situacionais, cujos dispositivos de observação e meios mecânicos de auxílio, poderão ser igualmente utilizados em ambientes naturais, sendo que neste caso a situação é provocada pelo examinador e não espontânea. Este poderá ser utilizado em selecção de candidatos para um posto de trabalho; avaliação de interacções entre pares, famílias, grupos, etc., recriando-se para efectuar este tipo de avaliações, quer situações concretas e semelhantes às da vida real, quer recriando o ambiente tais como salas de estar, jogos, escola, etc. Foram ainda criados testes situacionais mais simples (Teste BAT) em que se apresentam determinados estímulos aos sujeitos, os quais poderão desencadear um comportamento inadequado (diferentes comportamentos fóbicos e de ansiedade) [pp.186,187].
A segunda, com vista a aumentar a artificialidade da situação e a redução do realismo, prevê a criação de uma situação, como se esta realmente tivesse ocorrido. São os designados de role-playing (também designados de ensaios de conduta). Estes, à semelhança dos testes situacionais, permitem criar situações fictícias de interacção do sujeito com pessoas e objectos que figuram a situação representada, com o objectivo de avaliar a reacção e respectiva evolução do comportamento do mesmo perante uma determinada situação considerada importante para este. Para a aplicação destas provas é, normalmente, necessária a presença de um técnico e de um auxiliar que actue numa situação fictícia e permitem avaliar múltiplas situações com diferentes objectivos [p.187].
Embora ainda em fase experimental (segundo Fernández-Ballesteros), a Avaliação de Testes Virtuais (VAT), constitui um outro método para observação em situações artificiais na medida em que permite reproduzir diferentes situações naturais [p.187].
Podemos assim concluir que a aplicação da observação em situações artificiais depende, da sua aplicação em laboratório, da sua especificidade, da probabilidade de ocorrência e da sua reactividade. Este método parece ser importante no processo interventivo-valorativo, dada a sua sensibilidade na aplicação de tratamentos. A sua validade externa depende da estrutura e conteúdo dos acontecimentos a observar. No entanto, a aplicação deste método de observação deverá ser analisada minuciosamente e consideradas as vantagens e desvantagens antes da sua utilização [p.188].


Garantias Científicas da Observação


A observação apresenta, tal como todos os procedimentos de recolha de informação, uma série de garantias que comprovam o seu valor científico. No entanto, também ela está sujeita a alguns enviesamentos aquando da recolha de dados, os quais serão agora descritos.

- Fontes de erro provenientes do sujeito observado
Um dos principais problemas da observação reside no facto de o sujeito poder alterar o seu comportamento pelo simples facto de se saber observado. A tal atribui-se o nome de reactividade. Existe, contudo, um conjunto de indícios capazes de ajudar a identificar e, assim, controlar este problema:
  • Mudança sistemática na frequência com que se manifestam o(s) comportamento(s) objecto de estudo;
  • Aumento da variabilidade do comportamento sem que se verifiquem alterações nas condições ambientais;
  • Expressão verbal de que se está a gerar reactividade (por parte do(s) sujeito(s) observado(s) ou mesmo por parte das pessoas que lhe são próximas);
  • Discrepância entre os dados oriundos da observação e aqueles recolhidos com outros procedimentos (no que respeita a um mesmo comportamento);
  • Diferenças encontradas entre o observado e um critério objectivo previamente conhecido [p.188].
Por outro lado, os factores que poderão estar na origem da reactividade são os seguintes:
  • O processo observacional introduz novos estímulos no ambiente, os quais podem converter-se em estímulos discriminativos para o sujeito;
  • O grau de reactividade varia consoante o grau em que o sistema de observação modifica o ambiente natural;
  • Características individuais, tais como o sexo, idade, nível social, expectativas, etc;
  • O tipo de comportamento, bem como as suas propriedades (adequação, frequência, etc.);
  • Factores inerentes à biologia dos seres vivos (reactividade como propriedade dos organismos vivos) [pp.188,189].
Algumas medidas podem ser tomadas no sentido de controlar os efeitos da reactividade:
  • Utilizar observadores participantes sempre que possível;
  • Utilizar dispositivos ocultos e/ou à distância (câmaras de filmar, gravadores);
  • Minimizar a interacção observador-sujeito ou outras propriedades discriminativas;
  • Incentivar os sujeitos para que ajam da forma mais natural possível;
  • Utilizar um largo período de habituação;
  • Utilizar diversos sistemas de observação e diferentes observadores, de forma a averiguar acerca da validade dos resultados;
  • Utilizar procedimentos de observação livres de reactividade, tais como: a) medidas de erosão, de “rastreio” e de arquivo; b) produtos da conduta retirados da situação natural; c) observações simples, como aquelas registadas em situação natural por um observador independente que não intervém de forma alguma na situação observada [p.189].
- Fontes de erro provenientes do observador
No que respeita ao grau de participação, existem três possibilidades: observador não participante, observador perito e participante e, finalmente, observador chegado ao sujeito que é treinado para observar. Quando o observador é não participante, o sujeito não tem conhecimento dele. Este tipo de observação minimiza, geralmente, os efeitos da reactividade do observado, ao mesmo tempo que proporciona uma maior objectividade à observação. O observador participante é o mais comum em situações de avaliação, sendo que o seu grau de participação varia consoante a situação em análise. O observador chegado ao sujeito origina uma minimização da reactividade do sujeito, mas também uma diminuição na objectividade e precisão da observação [p.190].
As expectativas do observador podem ser, também, uma fonte de enviesamento, nomeadamente no que respeita à eleição do sistema de observação, ao registo das condutas e à selecção do desenho estatístico para análise dos dados procedentes do observado. Este tipo de viés pode ser evitado utilizando, por exemplo, observadores treinados que desconheçam as particularidades do caso [pp.190,191].
O treino do observador relativamente à tarefa de observação é algo fulcral no que concerne à obtenção de dados objectivos e precisos. Caso contrário, podem ocorrer, por exemplo, erros de tempo e de interpretação. O treino deve prolongar-se, ainda, por intervalos regulares, de forma a obter-se uma constante recalibração do sistema de observação [p.191].
As características gerais do observador (sexo, idade, habilidades, etc.) podem também influir nos resultados da observação [p.191].

- Fontes de erro provenientes do sistema de observação
O tipo de registo escolhido pode afectar quer a fidelidade, quer a validade dos dados. Para que tal não aconteça é importante que, nestes instrumentos, se verifiquem as seguintes particularidades: a) clareza nas definições condutuais; b) reduzido número de categorias ou condutas; c) utilização de um código estandardizado, cuja construção deva possuir garantias científicas suficientes; e d) conhecimento suficiente do sujeito por parte do observador, no caso de se utilizarem escalas de conduta ou classificações sobre atributos [pp.191,192].


Algumas questões sobre fidelidade, validade e exactidão da observação

No respeitante às garantias que os dados observacionais recolhidos (com ou sem procedimentos estandardizados) devem fornecer, existem quatro questões fundamentais a ser colocadas:

- Em que medida os dados recolhidos por um observador são generalizáveis aos recolhidos por outros observadores?
Basicamente, o que se pretende é constatar em que medida os dados observados dependem da pessoa que realiza a observação. Para tal, existem procedimentos que permitem a quantificação da percentagem de acordo inter e intra-observadores: são os índices de concordância, os quais se obtêm em função da unidade de medida utilizada. Existem, assim, três unidades de análise: ordem de ocorrência, frequência e duração. O índice de concordância em função da ordem de ocorrência permite uma adaptação à situação de busca do grau de concordância entre registos inter ou intra-observadores, quando o que interessa é avaliar a concordância na ocorrência e na ordem de registo das diferentes condutas. O índice de concordância em função da frequência é calculado com base no grau de acordo entre observadores, tendo em conta o grau de concordância devido ao acaso. Para tal, existe um índice global (C global) que implica o cálculo da concordância aleatória (C global aleatório). O índice de concordância em função da duração é também utilizado para comprovar a concordância entre observadores, tendo neste caso como unidade de medida a duração da conduta observada.
A generalização entre observadores pode ser incrementada pelas seguintes condições: a) utilização de claras definições condutuais que não possibilitem inferências; b) utilização de intervalos de observação; c) treino adequado e semelhante dos observadores; d) “recalibração” dos procedimentos de observação [pp.192-195].

- Até que ponto aquilo que é observado num determinado momento é generalizável a outros momentos da vida do sujeito?
Só é possível generalizar resultados quando os dados que registamos num determinado período de observação se repetem noutros períodos. Assim, existem três procedimentos principais para estimar esta forma de fidelidade das observações:
  • Correlações obtidas entre duas observações registadas em dois ou mais momentos por meio de coeficientes de fidelidade teste-reteste (correlação de Pearson ou Spearman);
  • Apreciação visual da linha base registada;
  • Utilização da fórmula de Spearman-Brown como medida da consistência interna das distintas categorias ou manifestações comportamentais observadas [pp.195,196].
- Até que ponto os dados de observação procedentes de uma situação são generalizáveis a outras situações?
Encontra-se aqui implícita a questão da validade ecológica daquilo que é observado, sobretudo no caso de os dados terem sido obtidos em situações artificiais, sendo pois necessário perceber se poderão ser generalizáveis à vida real. Para resolver esse problema, o avaliador poderá recorrer aos dados da amostra intersituacional, a escalas de apreciação dotadas de especificidade situacional ou ainda proceder a observação em situações naturais de forma a confrontar os resultados de ambas a situações [p.196,197].

- Até que ponto os dados avaliam o construto que pretendemos observar?
Apesar de existirem autores que defendem que esta questão se encontra relacionada com a validade, e outros que se encontra relacionada com a fidelidade, a verdade é que, acima de tudo, o cerne se encontra nas inferências que se podem realizar a partir dessas observações. Assim, para que se possam realizar inferências é necessário, antes de mais, que se tenham utilizado igualmente outros métodos (entrevistas, questionários, auto-registos, etc.) de forma a poder realizar-se uma posterior contrastação dos resultados obtidos [p.197].



Anexo I (Clicar na imagem para aumentar)






 
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